Base#1

André Fran

Diretor, escritor, palestrante e jornalista.

EM DEFESA DE ISRAEL

August 5, 2014

 

Texto originalmente publicado na NOO Magazine (http://noo.com.br/em-defesa-de-israel)

 

Ser ignorante não significa ser burro. Aprendi essa lição em um discurso do Bial anunciando Kleber Bambam como vencedor do Big Brother Brasil 1. Desde então já conheci uma norte coreana altamente esclarecida que não tinha a mínima noção do poder de penetração da internet ou o que significava a expressão “rock and roll”. Participei de um jantar com manifestantes iranianas que não viam contradição entre criticar a falta de liberdade em seu país e defender o uso do hijab. E estive com jovens geninhos do Vale do Silício que não sabiam a capital do meu país. O que você sabe vai até onde alcança seu acesso à informação, sua capacidade de relativizar, seu poder de angariar referências. E, claro, o quanto você é vítima de propaganda. E aí falo desde a publicidade que promete felicidade plena na forma de um tênis de marca ou da campanha política que transforma interesse econômico em questão de segurança. Tenho grandes amigos dos dois lados do muro que separa Israel e Palestina. Dois povos, duas religiões, duas realidades tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas. Pessoas de bem, inteligentes, cultas, com um conhecimento histórico e cultural diferenciado, mas com opiniões diametralmente opostas a respeito de quase tudo. Como é fato notório e parte integrante da cultura nacional, brasileiro adora torcer pro lado mais fraco. Trauma de formação da nossa identidade, necessidade de corrigir injustiças hereditárias, sede de vingança por desigualdades sociais… Não sei. Só sei que é assim. E aí quando acontece um conflito em que a disparidade entre os dois lados é tão flagrante como nesse Israel x Gaza, a torcida brasileira (composta por 200 milhões de técnicos de futebol com MBA em Ciências Políticas) pende sem pestanejar para o lado obviamente mais fraco: o dos palestinos. Só que o lado mais fraco nem sempre é o mais certo. Então, me proponho aqui a fazer diferente: escrevo em defesa de Israel. Claro que a brasileirada especialista em generalização parte pro ataque confundindo tudo. Israelense vira israelita, árabe vira muçulmano, sionismo vira judaísmo, misturam eventos, embaralham datas, confundem acontecimentos. E, com razão, se tornam alvos fáceis para qualquer contra- argumento a favor de Israel. Estes, por sua vez, acabam se passando por detentores do monopólio de uma verdade a que só seu povo teve acesso. “Vocês não sabem de nada! Só defendem o lado mais fraco! Vejam o outro lado da história…”. Lançam mão de uma cartilha ensaiada e sem profundidade que acaba por calar essa oposição tão desqualificada. Encaram os fracos questionamentos como agressão e devolvem com a ladainha oficial de sempre (sem sequer verificar sua legitimidade). Não são levados à reflexão que poderia apontar para uma alternativa pacífica nesse histórico imbroglio. E assim segue o trágico ciclo desse conflito. Pois espero com esse texto gigante (desculpem) apontar algumas falhas básicas no discurso de quem defende o indefensável com argumentos pouco convincentes. Quem sabe assim esse povo tão admirável, que de perseguido passou a ser dos mais influentes no cenário político-econômico internacional, possa buscar alternativas mais sensatas e menos bélicas. Que deixem as justificativas para buscar alternativas que apontem de fato um caminho para a paz.

 

 

1- “Israel tem o direito de se defender!” Se a melhor defesa fosse mesmo o ataque, o Brasil não tinha tomado de 7 x 1 da Alemanha na Copa. Ninguém é contra o Iron Dome (sistema antimísseis israelense), mas quando para “se defender” você precisa matar centenas de inocentes esse conceito de “defesa” começa a ficar meio vago. 2- “Se o Hamas nos acerta com um tiro, devolvemos com um tiro de bazuca! É errado? É, mas…” Como diz o João Kleber: para, para, para, para! Se você precisa colocar “mas” após a premissa anterior, volte dez casas no jogo da vida e comece de novo. You’re doing it wrong… A reciprocidade é algo mais básico que as leis de guerra, que as religiões, ou que a política. E está diretamente relacionada ao direito de defesa. Ou deveria estar, né? Isso é vingança na forma mais primária e contraproducente. 3- “O Hamas exige a extinção do Estado de Israel e o extermínio do povo judeu!” Eu acho que quem fala isso imagina o povo árabe como animais inferiores, brutos, atrasados e de baixo intelecto. Mais ou menos como os nazistas viam o povo judeu. Considere o Hamas um partido político ou grupo terrorista, eles já entenderam que não tem poder de fogo para encarar Israel. Uma conclusão bem óbvia, por sinal. Com base nessa realidade, sua carta de intenções já mudou consideravelmente, e, a mais recente delas, trazia apelos considerados razoáveis até por analistas políticos de Israel (me refiro aos menos radicais. Nada parecido com aquela ex-playmate que propõe que se matem crianças palestinas e suas mães para que elas não possam parir mais “terroristas”). Liberdade para poder rezar na mesquita sagrada de Al Aqsa, em Jerusalém, poder pescar além do limite marítimo imposto por Israel, abertura de portos e aeroportos sob controle da ONU… Acho que são coisas possíveis de se realizar dentro de um objetivo de paz. Se houver de fato o desejo de dialogar, claro. 4- “O Hamas usa civis de escudo humano!” Bom, vamos lá: Gaza é um dos lugares mais populosos do mundo. Considerada por muitos como “a maior prisão do planeta”. Acho que quem levanta esse argumento de “escudo humano” imagina crianças de mãos dadas em volta de um lançador de foguetes com faixas do Hamas amarradas na testa. Não é como se desse para montar um aparato militar em um deserto isolado. Tem civil em todo lugar em Gaza! E, bem… Se os mísseis inteligentes israelenses erram a ponto de acertar hospital, escola, abrigo da ONU… Será que são mesmo tão inteligentes assim? E, para encerrar esse ponto: o fato de serem escudos humanos seria motivo para evitar atirar e não para justificar sua morte, não??? 5- “O Hamas comemora a morte de israelenses!” De fato, abominável. Mas recentemente vimos imagens de jovens israelenses acampados no topo das colinas em Sderot para ver as bombas caindo em Gaza como quem assiste a final do Super Bowl. Além do show de horrores (e preconceito, e racismo…) no Facebook e até no app de pegação Tinder (palestinder.tumblr.com). E, colocando em termos bem práticos, Israel teve muito mais para “comemorar” ao longo dos anos do que a Palestina, né? 6- “Os civis palestinos são vítimas da política de violência do Hamas”. Ah, sim. Porque a vida na Cisjordânia, que é comandada pelo grupo Fatah, bem mais moderado, está vai muito bem, né? Essa eu vi bem de perto. O clima de opressão e apartheid. A humilhação, o tratamento diferenciado, a apropriação indiscriminada de território, a falta de perspectiva, a superioridade racial imposta, a violência com mulheres e crianças… E sim, muitos civis palestinos em Gaza são contra o Hamas. Mas nem por isso eles deixam de ser vítima de bombardeio. Ah, Hamas e Fatah voltavam a dialogar recentemente para tristeza de vocês sabem quem… 7- “Ambos os lados estão errados!” A velha teoria de um erro justificando outro. A diferença é que, pelo que mostram os números, um lado está muito mais errado que o outro. Deve ser uma merda mesmo viver sob o ocasional barulho de sirenes alertando para correr para um bunker porque lá vem foguete (bem mequetrefe, vamos combinar). Mas muito disso é propaganda do medo que justifica todo esse problema. Eu já estive na praia em Tel Aviv tomando uma cervejinha enquanto caíam bombas em Gaza. Na recente pausa humanitária no confronto, a galera em Tel Aviv foi pra praia enquanto palestinos recolhiam mortos nos escombros. Uma amiga estudiosa da questão Palestina me disse uma vez: “Em um conflito tão desigual, não defender o lado mais fraco já é ser parcial.” Essa eu fui buscar no dicionário. “Guerra: Luta armada entre nações, por motivos territoriais, econômicos ou ideológicos.” Desculpem, mas tivemos algumas guerras ao longo da triste história da humanidade, mas essa não é uma delas. Eu não vejo uma luta entre nações. Eu vejo uma nação massacrando um grupo de pessoas encurralado em um pedacinho de terra. E mesmo na guerra existem leis. 9- “A mídia faz campanha contra Israel!” É impressionante como um país infinitamente mais rico e influente, com um patrocínio inesgotável de uma das maiores potências econômicas do mundo, detentores dos principais conglomerados midiáticos existentes… não consegue fazer frente a um povo em situação paupérrima onde até uma mísera conexão à internet é privilégio. Felizmente, temos hoje as redes sociais para denunciar alguma coisa. Mas, ainda assim, é uma luta desigual. E todos sabemos para que lado pende essa balança. Se a mídia fosse mesmo imparcial, a revolta em todo o mundo seria muito maior do que os protestos (cada vez maiores) que começam a despontar na Europa e adjacências. 10- “Se tivesse condições, o Hamas é que praticaria um genocídio em Gaza!” Então, Israel está promovendo uma espécie de “genocídio preventivo”? É esse mesmo o argumento? E vamos combinar o seguinte: quando o massacre estiver sendo de palestinos contra israelenses a gente passa a condenar o outro lado. Beleza? Preferi não voltar muito no tempo para não me alongar ou fugir da proposta. Palestina histórica, judeus na região, guerras árabes, controle britânico, partilha da ONU, criação do Estado Judeu, devolução de territórios, Intifadas… Achei melhor me ater aos tempos atuais ou iria escrever uma nova versão do Corão ou da Torah. Foquei nos absurdos modernos desse conflito atemporal. Israel não vai conseguir bombardear seu caminho para a paz. Para cada criança mutilada crescerão dez terroristas revoltados. E não há muro capaz de conter o ódio de um pai que perdeu o filho para um míssil de Israel. Como propus no início do texto, eu quis mostrar como esses discurso é fraco e tão indigno dos amigos sensatos e inteligentes que o proferem. As barreiras culturais, a política do medo, a lavagem cerebral, a propaganda, fazem com que alguns sequer queiram conhecer o outro lado. O que explica muito, mas não tudo. Esses argumentos são tão somente uma tentativa vã e inútil de justificar o injustificável. São nada mais do que desculpas. Um pedido velado e envergonhado de desculpas. É preciso atravessar o muro, estender a mão. Quando um não quer dois não brigam, já dizia a minha mãe após mais um quebra-pau entre eu e meu irmão. Alguém tem que ser o bigger man nessa briga de irmãos. E, sim, acho mais sensato hoje cobrar essa postura de Israel. Por todos os motivos que me fazem admirar esse país e os amigos que tenho por lá. Sei que eles são capazes disso. Shalom! Salam Aleikum!